Audi Med Cup. A vela radical na televisão é dos kiwis e dos ingleses

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Em Marselha há um olho (virtual) que vê tudo, também veio da Nova Zelândia e não falamos de "O Senhor dos Anéis". Pode não acreditar, mas isto é vela do século XXI

Marselha deve ser por estes dias a cidade europeia com maior número de velejadores por quilómetro quadrado. Além da Med Cup, a cidade do Sul de França recebe por estes dias uma regata de veleiros antigos. Tudo com epicentro no Vieux Port, apinhado de iates e outras embarcações mais modestas. O i não adoptou a máxima de que "de manhã só se está bem na caminha" e cedo deixou Lisboa rumo a Marseille (há palavras que em francês têm mais charme). Mesmo assim, quando cheguei ao Vieux Port já tinha perdido - literalmente - o barco. E também uma manifestação violenta contra o primeiro-ministro francês, que não foi muito bem recebido, segundo disse o condutor que me levou do aeroporto até ao local da competição. A única hipótese de ver os velozes veleiros da Audi Med Cup era através do circuito interno de televisão que transmite a prova em directo (também para o site da competição).


Nem tudo estava perdido. Afinal, as imagens permitem-nos acompanhar tudo o que se passa nos barcos sem lá estarmos. Ou seja, poupamos o enjoo do mar e a probabilidade - que não é assim tão baixa - de levar com algo na cabeça e ainda conseguimos ver tudo sem nos molharmos. Claro que não é tão divertido, mas as imagens (de animação) em 3D, em tempo real, permitem aos fanáticos da vela seguir tudo ao milímetro.

Decidi perceber como funcionava esta ''máquina'' que, do conforto do sofá, nos coloca junto dos veleiros. Sigam-me até à zona de produção televisiva da Med Cup. John Rendall, sailing operations manager, coordena a transmissão 3D. O neozelandês de 24 anos explica que a localização dos barcos é obtida através de ondas rádio e GPRS, seguindo os dados para um computador que actualiza permanentemente as coordenadas. Nos bastidores a imagem que vemos na televisão perde o encanto e transforma-se em pequenas bolas que representam cada barco. Depois, um operador ajusta as linhas da trajectória e outro faz a realização em dois ecrãs de computador que funcionam como uma régie. Como as câmaras são virtuais, pode fazer tudo o que os equipamentos reais não conseguem, como voar por cima dos barcos. A animação é da Virtual Eye (Olho Virtual), uma empresa da Nova Zelândia que trabalha também no Mundial de Ralis (WRC) ou em importantes torneios de golfe e críquete. O programa, pasme--se, foi criado em 1992, quando os melhores PC do mercado eram 486 (pré-Pentium) e corriam no MS-DOS da Microsoft. John conta que todos os barcos desta competição foram previamente modelados, assim como os circuitos, para poderem ser utilizados nas diferentes etapas.

A utilidade do 3D é indiscutível, mas felizmente nem tudo é virtual. As imagens reais são captadas por cinco câmaras, duas delas dentro de barcos da competição (vão alternando), as outras nas embarcações de perseguição e do comité de juízes. A equipa que produz esta parte da emissão, juntamente com os comentários em estúdio, é britânica. "Nós somos ingleses, eles kiwis, não confundas!", diz-me um editor de imagem. Não sei qual deles tem um sotaque mais difícil de perceber, mas uns inventaram o futebol (e o râguebi), outros silenciam todos quando dançam o Haka. "Don''t worry", não há como confundir! Enfim, é melhor seguir em frente; no texto, porque no estúdio não saio do mesmo sítio. Fico ainda a saber que a equipa de produção tem 25 pessoas e viaja para todas as etapas da competição. A maior dificuldade, dizem, é trabalhar com todo o equipamento (câmaras, microfones) dentro dos barcos e sempre perto da água. Não é difícil acreditar: isto não é o reality show "Pesca Radical" nem a calma do Mediterrâneo se assemelha à agitação do mar de Bering. Mas ser cameraman dentro de um barco em constante montanha-russa não é tarefa tarefa fácil. Sejam eles kiwis ou ingleses.
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