Kelly Slater. O homem com o surf na palma da mão

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O melhor surfista de sempre venceu a etapa do Nike US Open, após 15 anos de jejum. Desta vez, fê-lo sem manhas

Estamos em 1996, a meio da época de competição. Kelly Slater e Shane Beschen estão taco a taco no ranking do circuito mundial de surf. O primeiro, natural da Florida, tem três vitórias, o segundo, californiano, tem uma a menos, mas parece determinado em não lhe facilitar a vida. Há dois anos que a tensão entre ambos tem vindo aumentar, após Beschen se ter mostrado superior a Slater, vencendo-o na final do US Open, etapa do circuito.

Em Agosto desse ano, a dupla volta a encontrar-se na final do mesmo evento e o surfista da Florida não quer repetir a cena. A praia está cheia. Ainda há raparigas com fatos de banhos cavados quase até às costelas, mas a permanente já saiu de moda. Kelly ainda tem cabelo, o seu coração ainda não foi destroçado pela actriz norte-americana Pamela Anderson e já tem no currículo três títulos de campeão mundial e dois anos de protagonismo na famosa série de televisão "Baywatch", onde interpretou o papel de Jimmy Slade (1992-1993).

Na final, Slater e Beschen remam para a mesma onda. Entre amigos, cada um iria para seu lado e a competição continuaria. Mas tal não aconteceu. Slater, então com 24 anos, vê que a jogada manhosa é possível. A vitória fica assim facilmente assegurada (conquistou mais um título nesse ano). Finge que rema para a esquerda, enquanto o californiano pende para a direita. Assim que se põe em pé, Kelly vira rapidamente para esquerda, obrigando Beschen a fazer-lhe uma interferência (no surf, dois atletas não podem apanhar a mesma onda para a mesma direcção, o competidor de trás tem direito a ela e o da frente é penalizado, com um corte na pontuação).

"Ele deu-me a volta quando me viu a remar para aquela onda. Fê-lo de propósito", disse então Beschen ao "Los Angeles Times". "Está bem claro que ele estava a usar a regra a seu favor. E apesar de não haver nada de ilegal no que fez, continuo a achar que isso é errado." Já Kelly assumiu o jogo sujo, mas não deixou de responsabilizar o californiano pela boa-fé. "Não estou contente por ganhar assim", afirmou. "Não é desta forma que queremos ganhar, mas foi assim que aconteceu. Ambos fizemos as nossas escolhas."

Melhor atleta de sempre Na segunda-feira, Slater voltou a fazer história. O surfista de 39 anos venceu outra vez a etapa do US Open, evento agora patrocinado pela Nike. Talvez por karma, há quinze anos Kelly não subia ao pódio em Huntington Beach. Desta vez, fê-lo sem manhas. E o australiano Yadin Nicol, que ficou em segundo lugar, nem teve hipótese de lhe dar luta. "Acho que o Yadin queria que eu vencesse, porque não apanhou ondas nenhumas", afirmou Slater em tom de brincadeira, pelo facto do adversário, de tanto ter escolhido, acabar por não apanhar nada.

Regressamos à década de 90. Enquanto Beschen começou, desde a derrota contra Kelly, a sair lentamente das luzes da ribalta, Slater continuou imparável. Mais do que recuperado do desgosto de amor e com outras mulheres bonitas, como Gisele Bündchen ou Cameron Diaz, no percurso, o surfista da Florida conta agora com dez títulos, uma conta bancária milionária e um estatuto único no surf mundial que, de certa forma, parece girar à sua volta.

Ainda no mês passado Kelly decidiu faltar à etapa de Jeffrey''s Bay apenas porque havia ondas boas nas ilhas Fiji. Slater - que, como os outros surfistas, só pode faltar às competições em caso de lesões ou problemas familiares - deixou alguns atletas e a organização do evento na África do Sul bastante irritados com a decisão. Face à polémica, escreveu no Twitter: "Honestamente, não sei se irei a J-Bay depois de comparar a previsão com as de Fiji. Podem-me tirar do Fantasy Surfer (jogo virtual de apostas da ASP) caso lá esteja!". Já não tem cabelo, mas continua a ser um sex symbol e está há alguns anos numa relação estável com Kalani Miller, uma rapariga morena e 16 anos mais nova.

Outra das guerras de Slater são as etapas do circuito em grandes cidades, como estratégia de marketing. E com esta posição, Kelly entra em desacordo com o seu patrocinador, a Quiksilver, que no próximo mês vai levar o surf a Nova Iorque com um prize money recorde no valor de um milhão de dólares. O norte-americano prefere os destinos onde existem de facto boas aondas. Considerado o melhor surfista e um dos melhores atletas de sempre, todos ganham e aguardam a sua presença no circuito - os mais novos porque apreendem, os mais velhos porque ainda não o venceram, o público pelo espectáculo e a indústria porque lucra com isso. Mas ele só aparece quando lhe apetece. E goste-se ou não do estilo - muitos chamam-lhe doente, esquisito, traiçoeiro ou obcecado -, a verdade é que ele é quem manda, porque tornou o surf naquilo que é hoje.
http://www.ionline.pt/conteudo/142169-kelly-slater-o-homem-com-o-surf-na-palma-da-mao