Portugueses deixam barcos nas garagens por causa da crise

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marinaMarinas perdem clientes, mas são precisas ainda mais para tornar a região do Algarve mais apelativa e segura como destino de navegação.

 

Com o aumento do preço dos combustíveis, muitos dos mais de 160 mil navegadores de recreio habilitados em Portugal continuam a deixar as suas embarcações a seco, nas garagens, ou nos habituais portos de recreio. Este Verão, no Algarve, não tem sido diferente do ano passado, registando-se quedas de afluência na ordem dos sete por cento.

Os números são da marina de Lagos, para quem aquele mercado, tal como o espanhol, constitui a maior fatia de clientes na época alta. O segmento é formado por embarcações de recreio de pequena dimensão, até oito metros, e os seus navegadores costumam ali passar, em média, 15 dias. A maioria é oriunda de Lisboa e da Andaluzia, tem entre 35 e 60 anos, transporta o próprio barco, e chega em família.

No caso da MarLagos (grupo MSF), com mais de 400 lugares de amarração, a mensalidade no "hotel" náutico - como lhe chama Ingrid Fortunato, directora das instalações - para uma embarcação com aquelas dimensões custa 690 euros. Toda a gama de serviços disponíveis está incluída no preço. Existe mesmo boat service (e à la carte), se se desejar tomar o pequeno-almoço embarcado.

Todavia, o facto de se tratar da melhor marina da península Ibérica, conforme atestou este ano o Instituto Internacional de Certificação Marítima, não lhe confere a satisfação de ter a casa cheia. "Quem vem à vela não sente as dificuldades criadas pelo aumento do preço dos combustíveis", nota Ingrid Fortunato, acrescentando que, em 2009, o espaço atingiu 85 por cento de média anual de ocupação.

O custo dos combustíveis, ainda que actualmente seja a principal condicionante, não explica tudo, pois não sendo o Algarve a região do país onde se concentra a maior rede de marinas, mas dispondo do maior número de amarrações (37%), são precisas mais marinas e portos de recreio para que se possa chamar ao Algarve um destino de navegação. "Em outros países, são criados destinos disto e daquilo. São precisas atracções e novas unidades para atrair mais navegadores. A Andaluzia já tem essa característica. E o que temos nós entre Vila Real de Santo António e Vilamoura? Nada! Existem portos de recreio que fazem preços muito baixos e estão sempre cheios, não aceitam viajantes, como em Vila Real e Olhão. Tavira não tem nada, apenas ancoradouros na ria Formosa, e Faro também está sempre cheio", lamenta Ingrid Fortunato.

Vilamoura foi a primeira marina a ser construída no Algarve e também é a maior. Além da pioneira, há instalações de acolhimento em Albufeira, Portimão - está outra em projecto para Ferragudo - e Lagos. Na costa Oeste, até Sines, há 70 milhas de costa sem possibilidades de acolhimento. E no Sotavento é um quase deserto.

Mas haverá mercado para essas instalações que faltam? A directora da MarLagos acha que sim: "Este cliente-tipo, espanhol e português, gosta de saltitar de marina em marina, e quantos mais sítios existirem mais confiança tem na navegação. Há espanhóis menos experientes que não sentem confiança, que têm receio de fazer grandes percursos, ou que não gostam de transpor o Guadiana. Gostam de parar de dez em dez milhas. Todos ficaríamos a ganhar, e acima de tudo a economia da região."

Estratégia

A náutica de recreio e de desporto há anos que tem sido assumida como uma das dez apostas para o desenvolvimento turístico do país. Uma actividade que não assenta unicamente no que o navegador deixa nas regiões por onde passa, mas que tem alicerces que vão mais fundo, por poder gerar empregos, desde a fundação de empresas de serviços, até à construção e reparação navais associadas à náutica de recreio.

"A actividade económica ligada ao mar e à náutica de recreio é dita como estratégica para a economia, e finalmente pensou-se um plano para agarrar essa vertente. Pelo menos, está identificado o produto náutico entre os dez estratégicos para o nosso turismo. Sabemos que as obras marítimas são grandes e dispendiosas, mas há locais, como este [marina de Lagos], que nem precisou de quebra-mar. Todavia, subsistem muitos obstáculos burocráticos e processuais. O licenciamento é complicado, até por questões ambientais, mesmo que se assuma que é produto estratégico. Do plano à acção passa muito tempo", diz Ingrid Fortunato, desde a sua juventude ligada ao meio náutico e desde 1999 à marina de Lagos.Também diz ser precisa uma melhor compreensão da náutica. Há por vezes uma visão pejorativa que faz com que, nesta altura, investir numa actividade tida como elitista seja olhado como politicamente incorrecto. "As pessoas ainda não têm a noção do impacte que este mercado pode ter na economia de todos. O potencial e a posição geográfica assumidos por Portugal são enormes. Estamos na rota do Atlântico, à entrada e saída do Mediterrâneo. Se mais navegadores passassem e parassem no Algarve seria fundamental. Temos uma posição geográfica ímpar", observa.

Classe média

Portugal ocupa apenas o 11.º lugar no ranking da União Europeia, que é de cinco embarcações de recreio por cada mil habitantes, longe dos 160 registados na Noruega ou dos 130 na Finlândia.

Fora da época alta, a preferida de portugueses e espanhóis, os britânicos preenchem grande parte dos lugares de amarração e animam as actividades e comércio locais. Diz Ingrid Fortunato que é no Inverno que chegam os britânicos: "Vêm embarcados e ficam, por vezes, com contratos de nove meses a um ano. São casais com muito tempo livre, já reformados, ou pré-reformados. Muitas vezes ficam a residir no barco. Outros vão e voltam, as viagens estão baratas. Durante o Verão, aproveitam para ir ver as famílias e deixam os barcos em pequenas reparações. Esse cliente é óptimo para ocupar o Algarve no resto do ano, pois dinamizam o comércio e criam raízes na região. É a típica classe média britânica. Muitos deles venderam casa para comprar o barco."

A responsável da marina de Lagos adianta que os clientes de maiores posses não passam por lá. "Têm barcos muito grandes e nós só acolhemos com o máximo de 30 metros, ao contrário de Vilamoura. Outros são muito largos e a nossa ponte é estreita. São clientes que gostaríamos de agarrar", sintetiza Ingrid Fortunato, convicta de que o Algarve teria a ganhar com mais lugares e condições para a náutica de recreio. "Isso garantiria novas sazonalidades, importantes para a região, que não pode viver só do Verão. Potenciaria a criação do destino náutico, que ainda não somos."

 

Fonte: http://www.publico.pt/Sociedade/portugueses-deixam-barcos-nas-garagens-por-causa-da-crise_1505521?p=1