Mar adentro. Fomos varrer o lixo subaquático de Cascais
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- Categoria: Notícia Mergulho
No fundo do mar encontrámos uma Feira da Ladra. Peixes, nem vê-los. Eram 26 mergulhadores e trouxeram 702 quilos de lixo
Trocar os nomes ao material ainda se aceita. Com alguma condescendência, corrige-se o trapalhão mergulhador de água doce e passa-se à frente. Agora, trocar as funções ao material é que não. O segundo regulador - nome do tubo por onde se respira debaixo de água - não é "o suplente". "É para dares a outro mergulhador que possa estar sem ar na garrafa", explica, num português a tropeçar no sotaque de leste, Igor, o responsável da escola Exclusive Divers. O tom mudou: antes era pachorrento, agora é reprovador. "Estou a ver que tens de fazer o curso outra vez." É verdade, devia fazer. O PADI Open Water Diver, curso de iniciação feito há sete ou oito anos, está num buraco mais fundo que os 18 metros de profundidade - limite máximo deste nível - dos mergulhos realizados a seguir. Pode ser que isto seja como andar na bicicleta que está na cave do prédio a ganhar pó e teias de aranha. Além disso, não há tempo para grandes cursos. Já passa das dez da manhã, hora marcada no passado sábado para o Clean Up the Atlantic, uma acção de limpeza subaquática da praia dos Pescadores, em Cascais. O objectivo definido pela organização, a câmara municipal, era, "por um lado, remover a maior quantidade possível de lixo, por outro incentivar a prática do mergulho em Cascais". A fasquia estava nivelada pelas três edições anteriores, em que foram recolhidas sete toneladas de lixo.
Pelo sim, pelo não, Igor juntou-me a Tatiana Costa: "Ela tem experiência, é boa mergulhadora, vais com ela." Por segurança, nos manuais deste desporto é proibido andar debaixo de água sozinho. Cada mergulhador tem um "buddy", que é como quem diz parceiro ou, neste caso, ama-seca. Foi à brasileira Tatiana Costa, que tirou o curso em 2008, que saiu a fava: além do lixo, teria de arrastar o "buddy". Não se importa - chato foi preencher o formulário para participar na limpeza: "Só faltava perguntarem quanto é que ganho." Mas a burocracia não demoveu 26 varredores subaquáticos de se inscreverem para uma visita ao fundo de uma praia onde, em circunstâncias normais, é proibido mergulhar.
Equipados até aos dentes (com colete, máscara, fato, os tais reguladores, garrafa de ar e muito peso às costas), lá entrámos na água. Ou melhor, tentámos. No cinto de lastros, para conseguirmos ir ao fundo, diz a regra que deve levar-se o equivalente a 10% do peso do mergulhador - ou seja, por cada 10 kg de peso, 1 kg no cinto de lastros. Ora, os oito quilos que tinha à cintura não foram suficientes para submergir. Não, não é uma fase de engorda pré-reality show de obesos em luta para perder peso na televisão, mas tive de pôr mais dois quilos no cinto - 10 no total: "Tem a ver com a espessura do fato que estás a usar. Quanto mais espesso, mais flutuas e mais dificuldade tens em afundar", explicam os instrutores da escola.
Segunda tentativa e homem ao fundo do mar. Ultrapassemos o que na gíria se chama "problemas de flutuabilidade" e que na prática se traduz num vaivém fundo do mar-superfície da água mais próximo de um trampolim do que de um mergulho, seguindo as indicações de Igor: "Esvazias o colete todo e quando chegares lá abaixo dás um toquezinho para encher."
Para bater no fundo não foi preciso muito, uma vez que a profundidade máxima a que chegámos na Praia dos Pescadores foram cinco metros. A fauna marítima na baia de Cascais é muito variada: pneus, ténis, um carrinho de bebé, uma placa de trânsito, um rádio. Tudo em segunda mão e em estado de conservação duvidoso. Tal e qual uma Feira da Ladra versão subaquática. Só não havia peixes para regatear preços. A espécie mais exótica com que nos cruzámos foi um cavalo marinho, que não se pode dizer que tenha sido o melhor dos anfitriões, ignorando olimpicamente as visitas. Verdade seja dita, é possível que não nos tenha visto, tal a dificuldade em, literalmente, ver um palmo à frente do nariz.
Também encontrámos redes de peixe. Muitas. "São redes dos pescadores que ficam no fundo do mar e demoram muito tempo a desintegrar-se, mas continuam a apanhar e matar peixes. Não é fácil tirá-las, são precisos vários mergulhadores e às vezes guindastes. No ano passado, tínhamos um", explica, já em terra, uma das voluntárias da organização.
A hora e meia de mergulho resultou em 702 quilos de lixo recolhido. Menos que as duas toneladas de 2010. "Isso significa que esta operação de limpeza tem dado resultados. Por um lado, estamos a retirar, gradativamente, muito do lixo que foi se acumulando ao longo de anos; por outro, estamos a conseguir sensibilizar as pessoas para não tornarem o mar num depósito de resíduos", resumiu o presidente da câmara, Carlos Carreiras. Apoiado, senhor presidente. Mas, provavelmente, 2012 dará melhores resultados se um dos mergulhadores não se limitar a trazer para terra um vaso, um isqueiro, alguns papéis e uma meia.
Fonte Nuno Castro
http://www.ionline.pt/conteudo/128152-mar-adentro-fomos-varrer-o-lixo-subaquatico-cascais



