TÉCNICAS - Caça no buraco

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A caça ao buraco é uma das mais ricas, variadas e produtivas técnicas de caça. Para o mergulhador e observador é a mais rendosa e a de mais fácil execução. Pratica-se a todas as profundidades, desde menos de um metro de água, até uma dada profundidade útil que varia com as capacidades do mergulhador em apneia. Convém sobretudo entender que a caça ao buraco é a primeira a ser limitada pela profundidade, tornando-se extremamente perigosa.

 

Assim como noutras técnicas temos de ter em atenção:

O Tipo de Peixe;

O Tipo de Fundo;

E qual a Arma a Utilizar.

Existem 4 Tipos de Peixe:

- Os que nunca entocam; poucos, como barracudas, serras, salmonete e pouco mais por esses mares afora.

- Os que vivem entocados, saindo eventualmente para caçar, e mesmo neste caso nem sempre, como as moreias e safio, abrótea, faneca e muitos peixes pequenos mas sem interesse de caça e que são fáceis de encontrar ao observador menos experiente.

- Os que vivendo em água livre, podem procurar abrigo debaixo de pedras, furnas, etc... fazem-no para descansar e são quase todos: pargos, salemas, saimas, douradas, tainhas, robalos, badejo, anchova, lírios, enxaréu e até as corvinas, raias e cações!

- Os que vivem perto do fundo e passam grandes períodos entocados, não só em descanso, mas sobretudo para se esconderem ou emboscarem: Mero, bodiões, sargo alcorraz e roçada, rascasso.

Depois há que ter em conta que se praticamente todos os peixes entocam, diverso é o seu comportamento.

E existem cinco Tipos de Fundo com Buracos:

- O Lajão, pedra normalmente chata e lisa, aberta por baixo em grandes fendas, salões ou prateleiras, quase sempre em fundo arenoso.

- O Laredo, pedra muito partida e amontoada, geralmente em volta de acidentes como peões, pontas e falésias. No labirinto que constituem há todo o tipo de buracos e espaços tão do agrado de muitos peixes.

- Os Matacões, grandes pedras, normalmente isoladas no fundo e que podem ou não roçar a superfície. Neles se abrem túneis, falhas e buracos diversos.

- As Furnas, autênticas grutas e cavernas, a descoberto ou submersas, que se abrem nas grandes massas, rochosas, como falésias ou pedras ilhadas

- As Fendas, são falhas verticais ou longitudinais, raramente oblíquas, estreitas, onde mal cabemos, que se abrem profundamente nas paredes rochosas das grandes massas. Existe um outro tipo de fendas que se abrem paralelas ao fundo e na vertical; não sendo as mais vulgares são normalmente interessantes como refúgio temporário de muitos peixes, sobretudo sargos, quando se sentem ameaçados.

Há ainda a considerar, fora destes buracos típicos, aqueles acidentes como as que são espaços abertos sob uma pedra, autêntico tecto suportado por duas pedras, que oferecem abrigo ou posto de caça a muitos peixes como saimas, pargos e até meros. Também os destroços ou barcos afundados, mais ou menos partidos em peças como chapas, caldeiras, etc. São buracos e excelente refúgio para quase todos os peixes.

Os buracos são regularmente ocupados pelo peixe, portanto devem ser marcados e visitados sistematicamente, aprenderemos com a prática que há buracos de mero, robalos, sargos, safio, etc. e os que são mistos; como há os de abrigo, repouso e caça. Convém marcá-los e identificar os ocupantes que podem até variar com a época do ano, maré e hora do dia, isto serão memórias de caçador! Os buracos descobrem-se da superfície ou fazendo meios mergulhos a estudar o fundo. Outro modo é observando o peixe que se movimenta e vai denunciá-los, ao vermos que desapareceram debaixo de alguma pedra, ou pelo o seu entrar e sair. Com alguma prática e poder de observação, acabaremos por desenvolver um sentido da pedra que intuitivamente nos conduzirá. A primeira coisa a fazer é, se o peixe está calmo e voga ao redor do buraco, fazer mergulhos em volta e cosendo-nos com o fundo ou atrás das pedras, esperar que passem ao nosso alcance ou mesmo venham observar, o peixe é curioso. O segundo passo, esgotado este recurso, é pormo-nos frente ao buraco, e afastados, esperar que o peixe assome à porta; outra forma é colocarmo-nos ao lado ou por cima da abertura e esperar que algum se mostre, ou arpoar os que tentem fugir, convidando-os a permanecer entocados. Em ambos os casos não fazer ruídos que perturbem o peixe dentro do buraco, cuidado com a poita por exemplo, como se deve imobilizar imediatamente o peixe arpoado, cujas vibrações vão alarmar os outros. Caçar em volta do buraco, o peixe que voga, vai obrigá-lo muitas vezes a entocar, como há quem aposte em fazer ruído à superfície, por exemplo descrevendo círculos com o barco, o que todavia me deixa dúvidas e não me parece ético. Observar o comportamento do peixe, entrando e saindo calmo do buraco, e se a cor é viva e brilhante ou sem nenhum sinal de avivamento ou mudanças, sinal este, de confiança. Vamos então, depois de tudo, caçar dentro do buraco:

Abordar o buraco de lado ou por cima, ficando de fora, e nunca de frente. Enfiar apenas a cabeça e a ponta da arma que acompanha esta, pronta a um tiro instintivo, meter o resto da arma depois de conhecermos o interior do buraco. Se a introdução da arma é difícil e ruidosa, podemos deixá-la posicionada, desde que tenhamos o buraco bem marcado, quer à vista (punho da arma muitas vezes é branco), ou com a bóia ou uma pequena rígida de emergência que usamos no cinto. Não usar ainda a lanterna. Pode, por exemplo, para se melhorar a habituação ao escuro, fechar um ou ambos os olhos durante a descida. O peixe pode estar à vista ou não, se estiver escondido pode trair-se pelo ruído - barbatanas que rufam, bater na pedra - pelo brilho, ou por levantar poalho (poeira muito fina que cobre muitas vezes o fundo). Se o peixe estiver amontoado, atirar aos das pontas e nunca ao molho. Se estiver algum perto de outra saída, atirar a esse preferencialmente. Se nadar no meio do buraco e houver fendas interiores, atirar primeiro ao que está fora e só depois ao das fendas. Observar se o peixe muda a cor para tons baços e escuros sinal de que está à defesa e tende a esconder-se no mais escuro e recôndito da toca. Só no fim de deve usar a lanterna e entrar no buraco para melhor o inspeccionar. Os que tiverem permanecido ou até os que não vimos, estão agora nos cantos mais escuros, estreitos e escondidos. Se vemos um amontoado de peixe e a situação é propícia, podemos tentar a sorte e fazer um tiro que arpoe vários, deixando-os sobreporem-se ou atirando à sorte, chamam-se duplas, triplas e por aí fora. Há diversas tácticas: se o peixe joga às escondidas e há diversos esconderijos interiores, bater por fora ou iluminar uma zona e ir do outro lado tentar a sorte, esperando assim tocá-los a nosso gosto; meter um pé numa abertura e atirar por outra; colocar diversas armas ou objectos a impedir a saída e atirar à vez em cada abertura, enfim, nesta guerra vale tudo!

Há quem recomende vivamente o não esvaziar de um bom buraco deixando alguns peixes para que atraiam outros e se possa repetir a caçada. Todavia lembro que o peixe tem de facto memória e comportamento adquirido, sendo cada vez mais difícil mantê-lo entocado, sobretudo nos locais mais caçados, por ele acaba por fugir depois de arpoado e até por vezes antes de tal, apenas ao assomarmos o buraco. Assim, pergunto se não será melhor esvaziar a toca para que não havendo sobreviventes não haja aquisição de comportamento defensivo?

Parece-me radical, e também nada benéfico, pelo que sugiro que se mate o peixe entocado, deixando ficar o que se refugie nas fendas e locais e locais mais recônditos, criando-lhe uma ilusão de segurança que não o faça perder o sentido de se esconder em buracos e deste modo mantenha o comportamento e, a nós a possibilidade de continuar a caçar ao buraco. A posição de tiro nesta caça pode não ser a vulgar, ocorre frequentemente que o buraco é curto e também pela necessidade de enfiar a arma aos poucos, à medida que assomamos a cabeça, tenhamos que recuar muito o braço. Por isso é costume virar o punho ao contrário e apoiando os dedos na parte contrária deste, enfiar o polegar no espaço do gatilho, atirando assim, o que pede apenas alguma prática. Aliás na caça ao buraco usam-se todas as posições de tiro, variando dedos e mãos de acordo com a necessidade e capacidade de improvisação.

Em relação ás Armas:

Para a escolha da arma devem ter em conta o tipo de buracos, se são compridos e de fácil acesso (90 a 110 cm), se são curtos ou de difícil acesso (50 a 75 cm). Pessoalmente prefiro caçar com as armas ditas júnior de 75 cm, com arpão de 110 ou 115 cm e elásticos de látex virgem para os buracos compridos, permitindo tiros longos, progressivos e certeiros; ou a mesma arma com arpão de 90 a 110 cm e elásticos tipo dinamite (vermelhos ou pretos, rijos), prevendo tiros curtos e portanto necessitando de maior velocidade inicial. No primeiro caso o nylon de pesca monofilamento por permitir velocidade, no segundo prefiro o clássico trançado e bem forte por:

- A menor velocidade desde, num tiro curto, é irrelevante.

- Não se corta tanto em contacto com as pedras.

- Permite melhor ponto de apoio para se puxar com as mãos.

- Melhor de cortar, com a faca, se necessário.

Quando os tiros são quase encostados, devemos ser rápidos a sacar o peixe, evitando que este fuja, enrole tudo, espante os outros e nos faça perder tempo, deve encurtar-se o fio, puxando-o todo e dando um nó junto ao buraco da cabeça da arma, ficando só um comprimento.

Para grandes peças, entocadas ou em destroços, pode usar-se mesmo, cabo de aço inoxidável, muito maleável e resistente. Não esquecer que os contratempos maiores são exactamente o partir do fio por fricção, o peixe enrolar o fio dentro do buraco e, sobretudo ficar o arpão preso lá dentro.

Se lhe chegamos, ou podemos enfiar nele a arma, para com jeito e força, rodar e puxar... apesar de ser uma barbaridade para a arma... mas pode estar em local inacessível e termos de o abandonar, se não tivermos um saca-arpões, peça que recomendo vivamente como a um gancho-saca-peixes ou bicheiro (graveto nos Açores), que pode poupar muitos esforços e arpões tortos nesta caça.

A Baby, é uma arma de carisma especial, contudo muita gente associa-a a uma arma sem força, para uns buracos pequenos ou para lagostas e polvos. Porém, frequentemente, é ela que fecha com chave de ouro um buraco em que o último sargo, de "dentes amarelos" que sai da toca, é o de maior porte.

Como medida padrão, temos as Baby's de elásticos com 50 cm e 60 cm, e as de pressão com 40 cm e 55 cm. Nas de elástico, podemos realizar algum tipo de alterações.

Os arpões não se devem prolongar muito à cabeça da arma, como no caso da júnior, standard, etc..., isto porque o tamanho útil da arma vai aumentar (comprimento do punho à ponta do arpão). Neste caso a ponteira do arpão deve terminar a mais ou menos 18 cm da cabeça da arma. Isto vai sem dúvida dificultar o "apontar" da arma ao peixe, mas vai ter uma maior capacidade de manobra dentro do buraco.

Outro factor importante, é a força. Uns elásticos possantes com características mais duras permitem tiros rápidos com maior perfuração. Se aumentar o diâmetro dos elásticos, o arpão a utilizar deve ser 6,5 mm.

Uma ogiva com hastes mais curtas aumenta naturalmente a força.

O arpão deve ter a distância entre o bico e a barbela mais reduzida, em relação a um arpão de água livre. Este deverá rondar os 3,5 cm ou 4 cm. A ponta do arpão será preferencialmente afiada em "obus".

O fio a utilizar deverá ser de monofilamento 180/100 ou multiplamente de 2,5 mm. Um fio de cor visível é importante. Por esta ser uma arma exclusiva para o buraco em que muitas vezes o arpão fica retido dentro deste, por razões de segurança, é uma mais valia ter sempre presente a posição do fio.

A esta arma poder-se-á também adaptar um tridente ou um pentadente.

No que diz respeito às medidas de 50 cm ou de 60 cm; a arma de 60 cm para uso corrente como buraqueira, com uma eficaz capacidade de manobra dentro do buraco e uma força considerável.

À arma de 50 cm falta por vezes perfuração num tiro um pouco mais longo dentro dos limites práticos para armas deste género.

As armas de pressão têm também duas medidas na sua classe de Baby's. As de 40 cm e as de 55 cm. Para o tipo de caça corrente ao buraco estas armas devem estar munidas de um pentadente com base de nylon. É uma arma rápida a manobrar e a recarregar, a sua força é considerável tendo mesmo que, por vezes, tirar pressão à que trás de origem e que oscila à volta dos 22 bar.

Com um tridente ou pentadente se a força for muito grande, danifica bastante o peixe. O ideal é balanceá-la para a utilização a dar. Ao fio a utilizar aplica-se a mesma fórmula que para as armas de elásticos.

Quanto às medidas de 40 ou 50 cm, visto que a força que trás de origem é na maioria das vezes superior ao pretendido, a arma de 40 cm apresenta-se como um bom compromisso, ganha em peso, e se tivermos em conta que tiros com muita força com um pentadente têm um efeito de "aquaplaning", comprometendo a precisão do tiro, isto deixa de ser um ponto-chave de escolha entre armas.

De qualquer forma estas armas apresentam-se como específicas. Os cuidados a ter como em qualquer arma, prendem-se com o estado do fio, que deverá ser factor de constante revisão, visto ser a arma que mais desgaste terá neste ponto, resultado dos puxões e fricção nas pedras.

A ponta do arpão, devido ao "peixe-rocha", também terá que se manter bem afiada, numa arma em que a força é sempre mais modesta do que em comparação com as suas congéneres de maiores dimensões, o efeito perfurante deve estar sempre facilitado.

A aplicação de um carreto numa Baby em condições de água turva, ou em situações em que a imediata recuperação da arma não é certa, é sempre aconselhável.

Se a arma não tiver um punho de cor visível deve-se aplicar-lhe fita isoladora de cor viva a fim de tornar facilmente perceptível da superfície se o arpão ficar preso no buraco.

Uma Baby deve constar do arsenal de todo o caçador submarino, principalmente se este é um apaixonado pela caça ao buraco. O tempo que se perde a posicionar uma arma de maiores dimensões, com os consequentes embates do tubo e arpão nas paredes do buraco, não só assustam o peixe com também permitem que este se arrume em posições mais difíceis de capturar.

É claro que existem buracos para todos os tamanhos de armas, mas normalmente, a Baby é sem dúvida a chave certa para um bom rendimento.

texto e fotos submerso.net